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O próximo
conflito do Brasil com Chávez
Sergio Leo
O próximo embate entre o
presidente venezuelano Hugo Chávez e o Brasil já tem assunto: o
polêmico Banco do Sul. Entre governos de países vizinhos que
participam da discussão de bastidores para a formação do novo
banco, fica cada dia mais clara a profunda divergência de
concepção entre Caracas e Brasília, que pode estourar, a
qualquer momento, em alguma das manifestações da agressiva
retórica de Chávez.
Em agosto, no Rio de Janeiro, a
convite do ministro Guido Mantega, os ministros dos países
envolvidos na discussão tentarão resolver o impasse a que se
chegou nas discussões técnicas. Participam da discussão para
formação do Banco do Sul, além do Brasil, todos os países de
língua espanhola da América do Sul, à exceção do Chile, que
acompanha as reuniões como observador, e da Colômbia. A
depender do clima da reunião no Rio, talvez seja mais fácil ao
Brasil preparar o desembarque do projeto Banco do Sul da maneira
mais amistosa possível, para evitar as turbulências retóricas
de Chávez. As divergências são muitas e algumas parecem
insuperáveis.
É "ponto de honra"
para os venezuelanos estabelecer em Caracas a sede da nova
instituição, compromisso já assumido com o governo venezuelano
pelos presidentes da Argentina, Néstor Kirchner, e da Bolívia,
Evo Morales, os primeiros a aderir à proposta de Chávez. O
Brasil defendeu que o tema seja posto em debate, que se
estabeleçam critérios técnicos para situar a sede do banco, de
preferência em um país pequeno, como o Paraguai.
Os venezuelanos também já
insinuaram que querem admitir sócios de outras regiões e
expandir as operações da instituição financeira a países da
América Central e Caribe - onde estão parceiros de Chávez na
Alternativa Bolivariana para os Povos da Nossa América (a Alba),
Cuba e Nicarágua. O Brasil insiste que o Banco do Sul, por
definição, deve se concentrar em atender aos países do
continente sul-americano.
Também há diferenças sobre os
critérios de risco, o peso de cada país na composição do
corpo técnico do banco, as atribuições da futura
instituição. As autoridades não reconhecem, mas a descrição
que participantes das discussões fazem do debate indicam que
Chávez teria, se criado o banco como defendem os venezuelanos,
um instrumento para continuar suas ações de financiamento na
vizinhança com menor desgaste político. Não tem feito sucesso
entre os venezuelanos o uso direto das verbas arrecadadas com a
produção de petróleo, mas não haveria forte oposição ao uso
dos fundos governamentais para compor o capital de uma
instituição financeira voltada às Américas.
As divergências incomodam os
argentinos, que vêem no futuro banco uma opção real para
financiar necessárias obras de infra-estrutura no país - como
fez questão de ressaltar o vice-chanceler argentino, Roberto
García Moritán, em um seminário do "Diálogo
Brasil-Argentina", promovido há poucos dias em Buenos Aires
pela Universidade Federal Fluminense e duas universidades
argentinas, com a presença do vice-ministro de Relações
Exteriores do Brasil, Samuel Pinheiro Guimarães.
"Houve um retrocesso nas
reuniões técnicas, mas não vejo foco de atrito por causa do
Banco do Sul", diz o ministro das Relações Exteriores,
Celso Amorim. Ele confirma que o Brasil tem insistido nas regras
de "sustentabilidade financeira" do banco - o que
exclui propostas de doações continuadas, ou depósito
freqüente de reservas em moeda estrangeira na nova
instituição. Também afirma que o banco, para manter o
propósito inicial, deve restringir-se aos países da ex-
Comunidade Sul-Americana de Nações, agora chamada de Unasul,
União das Nações da América do Sul. "Isso não quer
dizer que não temos interesse em instituição financeira para
investir no Caribe, mas o Banco do Sul é para facilitar a
integração sul-americana", diz Amorim.
O ministro diz acreditar em
acordo para constituição do banco, durante a reunião de
ministros promovida por Mantega, na primeira semana de agosto,
mas adianta que o governo brasileiro discute alternativas para
financiar ações no continente, enquanto corre a discussão
sobre o Banco do Sul. "Não vamos ficar parados, queremos
trabalhar com a Corporación Andina de Fomento, com outras
instituições", afirma o ministro. O Brasil também procura
formas de ampliar a atuação do BNDES nos países vizinhos.
Essas ações podem ser
complementares ao futuro Banco do Sul, ou o Brasil se
concentraria nelas, caso o projeto inspirado por Chávez se
revele muito distante da estrutura considerada adequada pelo
governo brasileiro. O argumento não é político, é técnico:
sem regras claras de governança, de administração de risco e
de transparência na tomada de decisão, o Brasil estará
impedido legalmente de pôr qualquer centavo na futura
instituição.
Com semelhantes argumentos
técnicos, segundo um diplomata argentino, o presidente do Banco
Central da Argentina, Martin Redrado, conseguiu evitar que se
cogite usar alguma parcela das reservas argentinas em moeda
internacional na composição do capital do Banco do Sul. Segundo
explicou Redrado, o uso de reservas para financiar investimentos
fragilizaria a argumentação da Argentina nas cortes
internacionais - onde vítimas do calote da dívida externa do
país tentam bloquear contas do governo Néstor Kirchner, até
agora sem sucesso. Ainda é pouco claro de onde se sacarão os
US$ 7 bilhões que, segundo previu a Venezuela, fariam o capital
do novo banco.
O rumo dos debates sobre a
polêmica instituição, nos bastidores, aponta a necessidade de
diplomacia até para um possível desembarque do Brasil (ainda
que Celso Amorim, arriscando-se a ser novamente alvo das
diatribes do venezuelano, costume dizer que "Banco do Sul
sem Brasil não é um banco do Sul"). Nesse assunto, é
baixa a tolerância, no Palácio do Planalto, com as pressões do
venezuelano. É forte, muito forte, o risco de novos ataques
verbais de Chávez ao Brasil, hoje uma pedra continental no
caminho de seu acalentado "Banco del Sur".
Sergio Leo é repórter especial
em Brasília e escreve às segundas-feiras v