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Brasileiros
vão atrás do 'sonho chinês'
Raquel Landim
Um pequena - mas crescente -
legião de brasileiros tem ido trabalhar na China. O perfil
desses profissionais é muito diferente daqueles que vão ao
Primeiro Mundo e trabalham como garçons ou faxineiros. País com
abundante mão-de-obra pouco qualificada, a China tem atraído
executivos e técnicos altamente especializados.
Ricardo Justo, 46 anos, vive há
sete em Dongguan, sul da China, e vê sua família duas vezes por
ano. Ele faz parte de uma grande leva de profissionais gaúchos
que migraram quando a China começou a transformar sua produção
de calçados de plástico e buscou mão-de-obra especializada em
couro.
Outro grupo de brasileiros na
China é formado pelos executivos de empresas brasileiras ou de
multinacionais. O fuso horário de 11 horas e o mandarim são as
principais dificuldades.
Brasileiros migram em busca do
'sonho chinês'
Ex-piloto da Varig, Rodrigo
Maroco, 44 anos, está de malas prontas para voar para a China.
Dessa vez, levará na bagagem muito mais do que a pequena valise
que o acompanha em suas muitas viagens pelo mundo. Ele planeja
mudar para Xangai e começar a voar pelos céus do território
chinês. Maroco já fez entrevista, teste psicotécnico e exame
com simulador de vôo. Falta apenas um certificado do governo do
país para que possa ser admitido pela Shangai Cargo, uma
recém-criada empresa de transporte aéreo de cargas.Maroco conta
que já visitou alguns condomínios de apartamentos em Xangai,
que lembram a Barra da Tijuca, bairro do Rio de Janeiro, onde
vive hoje. Ele vai para a China acompanhado da esposa, mas
deixará no país as duas filhas do primeiro casamento.
Presidente do sindicato de pilotos da Varig, empresa onde
trabalhou desde 1986, Maroco foi buscar outros caminhos depois da
crise. Diz que muitos companheiros encontraram oportunidades em
países emergentes, que não restringem a imigração como
Estados Unidos e a União Européia.
O piloto vai se juntar aos cerca
de 3,5 mil compatriotas que vivem na China hoje, conforme
estimativa da Embaixada do Brasil em Pequim. Esses brasileiros
moram a 18 mil quilômetros de casa, com uma diferença de 11
horas de fuso para os parentes. A distância é um limitador
óbvio, mas está aumentando o número de pessoas que vão para o
outro lado do planeta buscar oportunidades em um país que
cresceu 10% em 2006.
A emigração para a China é um
fenômeno diferente daquele que atrai um número muito maior de
pessoas para os países desenvolvidos. Dados do Itamaraty indicam
que vivem hoje 1,3 milhão de brasileiros nos EUA e 280 mil no
Japão. Eles mandaram para casa US$ 1,9 bilhão entre janeiro e
novembro de 2006, ou 80% do total que o país recebeu de seus
cidadãos que trabalham no exterior, conforme o Banco Central.
Alguns possuem diploma universitário, mas optam por trabalhar
como garçom, pedreiro ou babá para "fazer um
pé-de-meia" e voltar. Na China, a lógica é outra. Com uma
população de 1,3 bilhão de pessoas, o país possui abundância
de mão-de-obra sem qualificação e precisa de profissionais bem
preparados para seguir crescendo.
Estimulados pela promessa de
sucesso profissional, os brasileiros que vão para a China
superam barreiras como idioma, comida ou distância.
"Trata-se de uma mão-de-obra bastante qualificada",
diz o embaixador do Brasil em Pequim, Luiz Augusto de Castro
Neves. Na China, esses imigrantes chegam a ganhar até três
vezes mais do que no Brasil para exercer a mesma função. O
perfil é variado: executivos de companhias brasileiras e
multinacionais, empresários que abrem seu próprio negócio,
técnicos e alguns estudantes. Em comum, o gosto pela aventura.
Levantamento da embaixada do
Brasil em Pequim aponta 44 companhias brasileiras com
representação fixa na China, como Embraco, Embraer, Petrobras e
Sadia. A lista também inclui dois bancos - Banco do Brasil e
Itaú - dois escritórios de advocacia e quatro restaurantes.
"O número de executivos brasileiros na China é pequeno,
porque ocupam posições de diretoria e chefia", diz Rodrigo
Tavares Maciel, secretário-executivo do Conselho Empresarial
Brasil-China.
Os executivos brasileiros que
vivem na China chegaram ao país por três caminhos diferentes.
Muitos foram abrir o escritório de representação da companhia
em Pequim ou Xangai. Outros foram transferidos para trabalhar na
joint-venture que a companhia brasileira firmou com a sócia
chinesa. E ainda há os profissionais de alto
"know-how", que receberam um convite da multinacional
onde trabalham para atuar na filial chinesa durante um período.
É nessa última descrição que
está Renato Costa, 46 anos, que trabalhava com diretor do centro
de distribuição de peças da General Motors, em Sorocaba,
interior de São Paulo. No ano passado, recebeu uma oferta para
ser diretor de armazenagem e distribuição da GM Ásia/Pacífico
- um desafio e tanto, já que a GM é a maior montadora da China,
o país em que a indústria automobilística mais cresce no
mundo.
"Aceitei o convite na hora,
sem nem mesmo conhecer o país", diz Costa. Em Xangai desde
julho de 2006, acompanhado da mulher e da filha, ele conta que
esperava encontrar uma metrópole como São Paulo ou Nova York,
mas ficou impressionado com o contraste entre a modernidade e os
resquícios da China tradicional.
O executivo diz que o novo cargo
exige flexibilidade para se adaptar aos vários fusos horários.
Para se comunicar com Europa e EUA, Costa participa de reuniões
telefônicas até 11 horas da noite. Apenas dentro da Ásia, o
fuso chega a cinco horas da Austrália a Índia. A tecnologia
facilita a tarefa, pois permite estar sempre conectado.
"Posso fazer uma reunião de casa às seis da manhã, tomar
o café com a família, e chegar no escritório às nove",
diz.
Os brasileiros que vivem na
China relatam que são as atividades do dia-a-dia que representam
o maior desafio. A maioria das pessoas entrevistadas para essa
reportagem aponta o idioma como a principal barreira. Nas ruas,
não é possível decifrar nenhuma placa. Costa conta que tirar
dinheiro em um caixa automático com as instruções em mandarim
pode se transformar em uma batalha.
Tomar um táxi ou ir a um
restaurante também são tarefas difíceis para quem não fala o
idioma. Na carteira de Maroco está guardado um papel com o nome
de quatro pratos escritos em mandarim: frango ou bife, arroz e
legumes. Para Costa, o importante é manter o bom humor. "É
preciso ter a capacidade de rir quando você chega em casa e
descobre que aquele produto que comprou no supermercado não é o
que pensava", diz.
Mauro Santos, 46 anos,
funcionário da Embraco, viveu na China durante a última década
e voltou para o Brasil há seis meses. Ele relata que, com o
tempo, é possível se adaptar ao idioma e à comida. Sua
principal dificuldade na vida pessoal era o fuso horário.
"Qualquer urgência, você está, no mínimo, a 36 horas de
casa", diz ele. "Não é possível viajar em um feriado
de quatro ou cinco dias. Ir ao Brasil, no máximo, duas vezes por
ano."
Ele desembarcou na China pela
primeira vez em 1995. Santos fez parte do primeiro time da
Embraco que chegou ao país depois da joint-venture com a chinesa
Snowflake. Como a "etiqueta" dos compressores passaria
a ser Embraco, a companhia enviou um time para verificar a
qualidade do produto. O executivo atravessou um período de idas
e vindas entre China e Brasil até que veio o convite definitivo
para se tornar gestor de produtos e qualidade no país. Santos
ocupou também o cargo de gestor de materiais. A esposa, Lilian,
topou a mudança. Professora de inglês, aproveitou a
oportunidade para aprender mandarim e encontrou um mercado de
trabalho significativo, prestando serviços para grandes empresas
e bancos no Brasil.
O casal se mudou para uma
região em Pequim próxima à fábrica da Embraco. Em 1995,
quando os carros eram raros na China e muitas pessoas andavam de
bicicleta, Santos demorava 15 minutos até o trabalho. No ano
passado, devido ao trânsito intenso, o tempo gasto no trajeto
aumentou para uma hora e meia.
Santos assistiu a um período de
transformação econômica da China e ao surgimento de uma classe
média no país. Ele lembra que, em 1995, a China era
desorganizada e burocrática. Executivos que chegam hoje
encontram um país ágil e desafiador. "Uma coisa é
evidente: quando existe vontade política, a execução é
rápida, não existe economia de recursos e os resultados
impressionam", diz Costa, da GM.
No início, relata o executivo
da Embraco, era difícil fazer amigos na China. Ele ficava
constrangido, por exemplo, em convidar amigos chineses para
visitarem sua casa, já que as condições de vida dele eram
muito melhores do que a dos colegas. Hoje, o abismo que separa os
imigrantes dos chineses começou a diminuir. Santos deixou em seu
lugar uma engenheira chinesa que atuou como seu braço direito
por nove anos. Ela aprendeu todo o "know-how" do
trabalho na Embraco e, junto com o marido, comprou um apartamento
e um carro. Provavelmente, a China não precisará de tanta
mão-de-obra qualificada assim no futuro.v